O que (ainda) não aprendemos com as lições da Guerra Fria

O QUE (AINDA) NÃO APRENDEMOS COM AS LIÇÕES DA GUERRA FRIA

Geniberto Paiva Campos – Brasília, abril, 2021

 

Certos episódios históricos, considerados de fundamental importância pelos historiadores, terminam sendo interpretados e assimilados de modo superficial, até mesmo simplista, ou pior, equivocados, pelos povos que os vivenciaram.

A “Guerra Fria”, que marcou profundamente o jogo da política internacional na segunda metade do século XX, pela sua complexidade, é um destes eventos. E essa falha assume desmedida importância, desde que foi um episódio marcante, e cheio de nuances. E não somente para os países que compunham a “Grande Aliança”, a frente de resistência ao nazifascismo: Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética.

A persistência da “Guerra Fria” por tanto tempo, na realidade chegando até os dias atuais, apesar das tentativas de relegar o episódio ao esquecimento, evidenciou, tão somente, que a “Paz” obtida após os violentos conflitos da primeira metade do século XX escondia inconformismos com os resultados obtidos; o aumento das aspirações de supremacia das nações envolvidas e o receio da expansão do movimento comunista baseado no poderio bélico do campo socialista, sempre visto com lentes de aumento pelos países do “mundo livre”.

Os combatentes da “Guerra Fria” do lado ocidental pretendiam tornar-se vencedores, a qualquer custo, deste novo – e para eles decisivo – confronto. A influência deste objetivo nas relações internacionais, mesmo aparentando uma aura pacífica, foi também decisiva no posicionamento da política interna de países envolvidos nesses conflitos encobertos e na expansão da sua influência hegemônica para outras regiões do mundo. Tornando impossível a   esperada coexistência pacífica.

Os Estados Unidos foi o país que pagou um preço bastante elevado em sua política doméstica e por sua participação em conflitos internacionais, nos quais teve envolvimento direto, na medida em que assumiu a liderança e os elevados custos de uma guerra não-declarada, mas de complexos objetivos estratégicos, sendo um dos mais importantes conter/evitar a “expansão do comunismo”, o qual marcou definitivamente o padrão político ideológico de um conflito bélico não-declarado, cujas “batalhas” eram travadas em várias frentes. Tendo em mente, sempre, o terrível “efeito dominó...”  Resultando em uma ideologia anticomunista duradoura, mas, propositadamente, tosca e até ingênua.

As repercussões da “Guerra Fria” na política interna americana foram importantes, sobretudo em sua fase mais intensa. A desistência de Lindon Johnson de concorrer a um novo mandato presidencial, em 1969; a renúncia de Richard Nixon ao cargo de presidente, ameaçado por um processo de impeachment, em 1974, foram decorrentes da influência desse conflito no comportamento presidencial. Afinal, as estruturas institucionais de poder não poderiam estar “acima de lei”. E o sigilo das decisões, as operações intervencionistas encobertas, entre outros eventos, teriam gerado situações indefensáveis para a presidência do país, quando expostas ao conhecimento amplo da população, com severas implicações morais, e claro, políticas.

O “anticomunismo” foi o fruto ideológico mais importante da “Guerra Fria”. E inseriu-se, de forma direta ou sub-reptícia, na consciência e no comportamento político das pessoas, em escala mundial. Particularmente na América Latina esse sentimento espalhou-se em vários segmentos da sua população, especialmente na classe média, forças armadas, igrejas, mídia e a alta burguesia. Orientados e apoiados – sempre - pelos governos americanos, de ambos os partidos democrata e republicano. Que se tornaram mais intensos a partir da revolução cubana, em 1959. Teria havido o que a psicanalista Nora Merin denomina “colonização psíquica, que responde pela obediência inconsciente”, quando o tema é trazido ao debate. Qualquer alternativa seria sempre melhor que o comunismo...

A América Latina pagou – e ainda paga – um preço elevado em sua busca incansável pela igualdade social, desenvolvimento econômico, e a procura, ainda que tímida, da Soberania. Movimentos quase sempre assumidos como de origem “comunista”, e, portanto, sujeitos a golpes de estado e desenfreada perseguição política, por parte do governo americano. Com a cumplicidade de seus dirigentes, Brasil, Chile, Argentina, Uruguai foram vítimas de golpes de estado, de inspiração anticomunista, com a participação efetiva do governo americano.

Nas últimas décadas, quantos crimes foram cometidos em nome do anticomunismo, e mais recentemente, da luta contra o pretexto da “corrupção”. Tortura, assassinatos, “desaparecimentos”, prisões ilegais e vários outros tipos de ilegalidades, cometidas contra cidadãos inocentes, todos, em princípio, culpados, sem necessidade de provas.

Vale lembrar um pouco da História política recente do Brasil. Quando Getúlio Vargas assumiu a presidência da república, pela primeira vez em eleições livres, em 1950, em substituição ao presidente Eurico Gaspar Dutra.

Getúlio procurou fazer um governo voltado para o desenvolvimento do país, preservando e ampliando direitos dos trabalhadores. Ao criar a Petrobras, em 1953, tornou inviável, aos olhos dos americanos, o seu mandato. Carlos Lacerda, da União Democrática Nacional – a UDN, passou a fazer seguidas denúncias de corrupção ao governo Vargas, anunciando, mesmo sem provas, a existência de “um mar de lama no palácio do Catete”. Seguido do assassinato do major da Aeronáutica Rubens Vaz, num confuso atentado, cometido contra Lacerda, na rua Toneleros, na zona sul do Rio de Janeiro. Isso acabou por levar Vargas ao suicídio, em 1954, gesto extremo do governante gaúcho, para deter o golpe udenista.

Estava em curso uma séria crise político-institucional, com as quais o país iria conviver daí por diante. Crise esta que foi resolvida com a intervenção legalista do Marechal Teixeira Lott, o qual destituiu o vice, no exercício da presidência, João Café Filho substituído pelo deputado Carlos Luz, também destituído, e depois pelo senador Nereu Ramos.

Em novas eleições presidenciais, foi eleito Juscelino Kubitschek, cuja vitória foi inicialmente contestada, mas que assumiu normalmente. JK fez um excelente governo, abrindo rodovias, criando a indústria automobilística nacional, e construindo, em tempo recorde, a nova capital, Brasília, na região centro oeste. Seu sucessor foi Jânio Quadros, o qual governou por apenas 7 meses, renunciando ao seu mandato, sem maiores esclarecimentos, em agosto de 1961. Seu vice, João Goulart, somente assumiu, por acordo político militar, com a instituição do regime parlamentarista.

Estavam criadas as condições para um golpe de estado, novamente de inspiração anticomunista, sob a liderança dos militares, que viria a ocorrer em março/abril de 1964, com forte presença americana, o qual duraria 21 anos, com a destituição do presidente Goulart. E com uma sequência de generais-presidentes: Castelo Branco; Costa e Silva; Garrastazu Médici; Ernesto Geisel e João Figueiredo.

Em 1985 ocorreu a Redemocratização, com a passagem tranquila do poder para o estamento civil. Logo depois foi promulgada uma Nova Constituição (Constituição Cidadã, em 1988, segundo seu mentor, deputado Ulisses Guimarães), regime democrático que prevaleceria por 31 anos, até que um novo golpe de estado viesse a decretar o impeachment da presidente Dilma Roussef, em 2016, movimento fortemente apoiado pelo governo americano, para retirar do poder o Partido dos Trabalhadores. Uma forma “soft” de exercício do poder discricionário. Ou o “anticomunismo” do século XXI. Agora, sob o pretexto do “combate à corrupção”. Neste caso ocorreu a importante participação de um novo ator, o poder judiciário, cúmplice da operação binacional (Brasil/Estados Unidos), conhecida como “Lava Jato”.

Dessa forma, completaram-se 59 anos, entre o final da II Guerra e o início da operação )1945/2014), sempre na vigência do “anticomunismo”, a aposta perene da extrema direita, para a derrubada de regimes democráticos, convenientemente rotulados de “comunistas” pelos agentes golpistas. Lembrando que o “Trabalhismo” assumiu, quando necessário, o papel do “comunismo”. Assim aconteceu com Getúlio e Jango, ambos do Partido Trabalhista Brasileiro/PTB, na segunda metade do século passado ( 1954/1964) e com Lula e Dilma, do Partido dos trabalhadores/PT, na segunda década do século atual, ocasião em que Dilma sofreu impeachment, baseado em inconsistências, na realidade meros  pretextos, e em seguida, o ex-presidente Lula foi preso e condenado – e assim alijado da disputa presidencial – e mantido em prisão absolutamente ilegal, por quase 2 anos, prisão admitida pelo emérito juiz como “sem provas, mas por convicção pessoal”. Conforme determinam os cânones da “ideologia anticomunista”. Condição suficiente para justificar qualquer ilegalidade, desde que necessária à consecução dos objetivos políticos escusos da extrema direita.

A “Guerra Fria” provocou incalculável atraso nas relações internacionais, muito distante de uma necessária coexistência pacífica entre povos e nações, condição essencial para o estabelecimento definitivo da Paz Mundial e do pleno desenvolvimento dos povos. Distante, para sempre, da paranoia anticomunista, doença aparentemente incurável, e que, parece, já começa a contaminar, seriamente, o novo governo democrata americano. Na medida em que o presidente Joe Biden, aparentemente falando sério, distribui ameaças à China e à Rússia. E promete criar uma operação Lava Jato Global, visando conter (Meu Deus!) a Corrupção, alongando o já longo braço de intervenção americana no mundo. Ainda não conseguimos sair do “círculo de giz” imposto pela “Guerra Fria”. Ou não aprendemos as suas lições, ou estas foram convenientemente esquecidas. Para atender às Razões de Estado...

Caberiam, finalmente, três questões: 1 - decorridos mais de 70 anos da “Guerra Fria”, a evolução natural dos seus padrões político ideológicos ainda não ocorreu? 2 – não seria o momento de se criar um COMITÊ PELA PAZ MUNDIAL? Espaço livre e aberto para irmos além da “Detente Cordiale”, em busca de uma efetiva COEXISTÊNCIA PACÍFICA? 3 - Afinal, a quem interessa a sobrevivência da “Guerra Fria”?

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