Por que o bolsonarismo parece fracassar nas eleições

Candidatos pró-governo não emplacam em quase nenhuma capital. Crise econômica, inflação de alimentos e fim dos R$ 600 podem abalar apoio ao presidente e sinalizar mudança de cenário. Mas falta muito para derrotar agenda da direita

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Publicado 29/10/2020 às 09:30 

Na Deutsche Welle Brasil

Em 18 dias, eleitores de todo Brasil irão às urnas escolher seus candidatos a vereador e prefeito. E, como é comum nos pleitos municipais, o presidente da República está apoiando alguns nomes. Entre os escolhidos por Jair Bolsonaro, estão Celso Russomanno (Republicanos) em São Paulo, Coronel Menezes (Patriota) em Manaus, Capitão Wagner (Pros) em Fortaleza, Bruno Engler (PRTB) em Belo Horizonte e Marcello Crivella (Republicanos) no Rio.

Os resultados das pesquisas de intenção de voto até o momento, porém, não indicam um impacto decisivo do apoio de Bolsonaro. Alguns dos políticos respaldados pelo presidente estão em queda nas pesquisas, e outros não têm chance de ir ao segundo turno.

Isso se deve à dinâmica das eleições municipais e a particularidades políticas de Bolsonaro, como não estar filiado a nenhum partido. A falta de candidatos bem posicionados e explicitamente vinculados ao presidente, contudo, não indica enfraquecimento da sua plataforma política — em diversas capitais, candidatos não apoiados por Bolsonaro apostam em discurso semelhante ao dele e têm chances de vitória.

A análise comparativa de eleições passadas indica que, em regra, a popularidade de um candidato a presidente é mais facilmente transferida a políticos que disputam eleições no mesmo momento, como para deputado federal, senador e governador, diz Lucio Rennó, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília.

Isso ocorreu, por exemplo, em 2018, quando a popularidade de Bolsonaro levou a um sucesso estrondoso do seu então partido, PSL, que fez a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados e elegeu governadores alinhados ao seu discurso. “Nesse caso, eles dividem o palanque, fazem material de campanha juntos, os nomes ficam mais associados”, afirma.

Nas eleições municipais, que ocorrem dois anos após a eleição para cargos federais e estaduais, a expectativa de transferência de popularidade é “mais reduzida” e condicionada ao desempenho que o presidente já demonstrou no cargo. “Presidentes bem avaliados publicamente se tornam bons cabos eleitorais, e os menos populares se ausentam da disputa para prefeito”, diz.

Presidentes bons de voto

Marta Mendes da Rocha, pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Política Local da Universidade Federal de Juiz de Fora, explica que, quando o ocupante do Palácio do Planalto está bem avaliado, seu capital político passa a ser “disputado a tapa” pelos candidatos a prefeito, que buscam com isso demonstrar aos seus eleitores que têm acesso aos corredores Brasília, onde se concentram decisões sobre verbas essenciais ao funcionamento das máquinas municipais.

Isso ocorreu, por exemplo, em 1996 com Fernando Henrique Cardoso, que em setembro daquele ano, embalado pelo sucesso do Plano Real, era avaliado como ótimo e bom por 43% da população, e em 2008 com Luiz Inácio Lula da Silva, que em meio ao crescimento econômico e à redução da pobreza obteve 64% de ótimo e bom em setembro, segundo pesquisas Datafolha.

Bolsonaro não tem dados positivos na economia para mostrar, após a pandemia do coronavírus e o fraco desempenho do PIB já em 2019. O auxílio emergencial, por outro lado, elevou sua taxa de ótimo e bom a 40% em setembro, segundo pesquisa do Ibope. O benefício, que começou a ser pago em abril, no valor de 600 reais, foi reduzido a partir de outubro a 300 reais e deve ser extinto no final do ano.

Há outras diferenças que dificultam a comparação de Bolsonaro com presidentes anteriores que foram considerados bons cabos eleitorais a candidatos a prefeito. O mais relevante é que o presidente não está filiado a um partido político, o que enfraquece o processo de montagem de alianças e acordos locais. “Por mais que os níveis de identificação partidária no Brasil sejam baixos e que os partidos não contem com a confiança da população, na eleição os partidos importam, são eles que têm a infraestrutura para costurar apoios com candidatos a vereador e prefeito”, diz Mendes da Rocha.

Bolsonaro deixou o PSL, partido pelo qual foi eleito, em novembro de 2019, e tentou criar uma legenda própria, o Aliança pelo Brasil, que não obteve ainda o número de assinaturas necessárias para ser registrado como partido na Justiça Eleitoral. Além disso, apesar de ter se aproximado do Centrão, o presidente não governa formalmente coligado a outras legendas.

“Em 2008, tínhamos candidatos de vários partidos da coalizão nacional mobilizando muito a imagem de Lula. Onde tinha aliado do governo, tinha foto, vídeo e áudio do Lula, usados exaustivamente nas campanhas locais para catapultar candidaturas não só do PT, mas de outros partidos aliados”, compara a cientista política Monalisa Soares Lopes, da Universidade Federal do Ceará. “Como Bolsonaro não tem um partido no qual irá investir sua energia, ele busca na sua base os que têm vinculação ideológica com seu projeto”, diz.

Além disso, as taxas de aprovação do presidente, apesar de terem subido com o auxílio emergencial, estão abaixo dos melhores anos de FHC e Lula, e Bolsonaro se mostrou uma liderança errática na condução do governo durante a pandemia e insensível com as vítimas da covid-19, segundo Mendes da Rocha.

Números nas capitais

Em São Paulo, onde Bolsonaro apoia Russomanno, tendo inclusive autorizado Fábio Wajngarten, secretário-executivo do Ministério das Comunicações, a acompanhá-lo na campanha, pesquisa Datafolha realizada em 5 e 6 de outubro mostrou que 63% dos eleitores “não votariam de jeito nenhum” em um candidato apoiado pelo presidente e que apenas 16% votariam “com certeza” no nome escolhido pelo presidente.

Na pesquisa mais recente do Datafolha, realizada em 20 e 21 de outubro, Russomanno marcou 20% das intenções de voto, contra 29% do levantamento de 21 a 22 de setembro, e vem repetindo o derretimento que experimentou nas suas duas campanhas anteriores a prefeito da capital paulista.

No Rio, o atual prefeito Crivella, que foi autorizado por Bolsonaro a usar sua imagem, está em segundo lugar, com 13%, segundo Datafolha de 20 a 21 de outubro, enquanto o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), lidera com 28%.

 Brasilien | Marcelo Crivella bei seiner Amtseinführung zum Bürgermeister von Rio de Janeiro (picture-alliance/AP Photo/L. Correa)

O impopular prefeito do Rio, Marcelo Crivella, que patina nas pesquisas

Em Belo Horizonte, Bruno Engler, em Belo Horizonte, está em quarto nas pesquisas, com 3% da intenções de voto segundo pesquisa Datafolha de 20 a 21 de outubro. Em Manaus, Coronel Menezes tem 6% e está sexto lugar, segundo pesquisa Ibope de 12 a 14 de outubro.

A exceção é Fortaleza, onde o candidato apoiado por Bolsonaro, Capitão Vagner, lidera as pesquisas com 28%, segundo levantamento do Ibope de 12 a 14 de outubro. A capital cearense, porém, tem algumas particularidades. 

Vagner, que conta com o recall de ter sido candidato a prefeito em 2016 e chegado ao segundo turno, tem evitado a usar a imagem do presidente em sua campanha, em busca de um reposicionamento discursivo para cativar o eleitorado não-bolsonarista, diz Lopes, da Universidade Federal do Ceará.  

Em Fortaleza, 43% dos eleitores afirmam que a chance de votar em um candidato diminuiria se ele fosse apoiado pelo presidente, enquanto 28% disseram que aumentaria, segundo pesquisa Ibope realizada de 12 a 14 de outubro. Lá, Bolsonaro tem sua quarta pior taxa de aprovação entre as capitais do país, com apenas 26% de ótimo e bom.

Expansão da direita?

O fraco desempenho desses poucos candidatos apoiados pelo presidente pode encobrir um efeito indireto dele na campanha municipal deste ano: favorecer a expansão de candidaturas de direita, mesmo que não explicitamente ligadas a Bolsonaro, diz Rennó, da Universidade de Brasília.

Segundo Rennó, apesar de as pesquisas indicarem que candidatos apoiados pelo presidente não estão decolando, Bolsonaro é responsável por um alinhamento de valores conservadores que estavam dispersos antes da sua vitória em 2018, e que hoje está sendo explorado por diversos políticos.

“Bolsonaro conseguiu fazer uma orquestração de valores, que incluem uma visão dura de combate ao crime e à corrupção, uma postura econômica liberal, um conservadorismo moral sobre gênero e sexualidade e uma valorização de dogmas religiosos em detrimento da ciência. Isso gerou um bloco no eleitorado brasileiro que hoje se identifica com maior tranquilidade com essas dimensões conjugadas. E isso é um fator que vai influenciar as eleições municipais”, diz ele, que estima que 20% a 25% do eleitorado estejam nesse grupo.

“Isso mobiliza o apoio a políticos desse campo, que não precisam estar alinhados a Bolsonaro, nem aparecer abraçado com ele ou citá-lo explicitamente. Basta eles defenderem essas posições”, afirma.

Esse fenômeno, diz Marta, indica também a probabilidade de mais disputas dentro do campo da direita, nas quais diversos candidatos têm agenda semelhante. Em São Paulo, por exemplo, além de Russomanno, Arthur do Val (Patriotas), com 4% de intenção de voto, e Joice Hasselmann (PSL), com 3%, disputam o eleitor bolsonarista. Ela discorda, porém, que qualquer vitória de candidatos desse campo seja atribuída ao fenômeno Bolsonaro. “Há divisões e teremos que ter sensibilidade para evitar interpretar qualquer avanço da direita como um avanço do Bolsonaro”, diz.

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